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CMJP celebra 21 dias de Ativismo em Combate à Violência contra a mulher
16.12.2022
Redação

Sessão especial trouxe dados e debateu formas de enfrentamento desde a educação de crianças e adolescentes à conscientização dos homens e a masculinidade tóxica

Os 21 dias do Ativismo em Combate à Violência contra a Mulhers foram celebrados durante sessão especial realizada na Câmara Municipal de João Pessoa (CMJP), nesta sexta-feira (16). O evento foi presidido pelo vereador Damásio Franca (PP), em representação à suplente de vereadora Rebeca Sodré, que havia solicitado o debate, quando substituiu o vereador Marmuthe Cavalcanti (Republicanos) em sua licença.   

Justificando a sessão, a ex-vereadora Rebeca Sodré, informou dados sobre o tema: “Em um dia, temos uma média de quatro mulheres assassinadas simplesmente por questão de gênero. A cada hora, 503 mulheres são vítimas de agressão, ou seja, a cada 60 minutos, mais de 500 mulheres estão sendo agredidas. Quase 98% foram vítimas de um companheiro atual, antigo ou outro parente. Quando a gente parte para as negras, são 66,7%, que, muitas vezes, são invisibilizadas. Mais de 70% das mulheres mortas estavam em idade reprodutiva, tendo entre 18 e 44 anos. Foi com base nessas violências que propusemos essa sessão participativa, em que vamos escutar diversos segmentos que vão apresentar seus trabalhos na cidade. (…) Esse tema merece ser discutido todo dia por toda sociedade, nas escolas, em casa e aqui, na Casa do Povo. Que bom ver este plenário cheio de pessoas defendendo essa causa, não só com as leis, mas com o acolhimento”.

A coordenadora do Centro de Referência da Mulher no Cariri da Paraíba, Juliana Timóteo, enfatizou que os filhos também são vítimas dessa violência e explicou que existe um trabalho que leva os homens à ressocialização e à terapia na zona rural. “Falamos para os homens, para chamá-los para a conscientização do comportamento da masculinidade tóxica, definida por um psicólogo americano como sendo reflexo da pressão social feita sobre homem ao longo da humanidade e resulta na violência contra as mulheres”. Ela ressaltou que o órgão realiza diversos projetos sociais em diversas cidades do interior da Paraíba. “Muitas vezes esse comportamento do homem é estrutural por serem criados para serem como são. Trabalhamos a desconstrução desses comportamentos. A juíza da nossa comarca, quando recebe uma denúncia, já encaminha o homem para terapia e ressocialização, para se envolver na luta do combate a essa violência. As mulheres dizem: ‘Eu apanho e minha mãe apanhou. Fui ensinada que tinha uma cruz para carregar e aceitei viver nesta condição’. Dizemos que não precisa ser assim”, finalizou Juliana Timóteo.

A coordenadora das Delegacias de Atendimento à Mulher, a delegada Sileide Azevedo, destacou que a Paraíba dispõe de 14 unidades de delegacia especializada, mas que também leva o atendimento acolhedor e especializado aos municípios onde não têm delegacia, para que a vítima se sinta segura. “A violência não começa com a morte, precisamos ajudar essa mulher a se reconhecer no ciclo da violência, muitas vezes naturalizada. E esse papel é de todos e todas nós”, enfatizou.

O ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil da Paraíba (OAB-PB), Paulo Maia, dividiu o movimento em dois momentos. “Preciso dizer duas coisas: a primeira que de fato a luta do combate à violência contra a mulher é de todos e a repressão à conduta violenta deve ser forte e incisiva para que não ocorra mais. A segunda: deve haver a participação dos homens nessa luta para ressignificação sobre como somos todos iguais. Não abraço bandeiras por me ver contemplado em diversas bandeiras. Estamos no mesmo barco enquanto seres humanos. A lei Maria da Penha especificou que os homens são os vetores da violência contra as mulheres por estruturas passadas tidas como corretas, mesmo sendo distorcidas. A mentalidade do homem não se muda de um dia para outro, mas se muda”, declarou. Ele lembrou que, enquanto presidente da OAB-PB, realizou diversas ações de conscientização sobre a violência contra as mulheres, e também no combate a qualque tipo de preconceito e violência.

A representante da Comissão de Combate à Violência e Impunidade contra a Mulher da OAB-PB, Amanda Lopes, chamou atenção para a questão da violência obstétrica. “É uma violência bastante comum, um tema extremamente importante e pouco debatido. Muitas mulheres sequer sabem que foram vítimas de violência obstétrica. Vemos que é dúvida recorrente entre próprios profissionais de saúde”, afirmou Amanda, acrescentando a importância da disseminação do assunto, uma vez que essa violência só será erradicada através do conhecimento. Rebeca Sodré destacou que a violência obstétrica não é só física, inclui também a forma de tratamento que a mulher recebe no atendimento médico.

Leandra Santos, do Instituto Poderosas em Ação, afirmou que mais de 50 mulheres se fortalecem em favor da luta contra o câncer. “Lutamos vigorosamente todos os dias contra o câncer e nos fortalecemos também na luta para combater a violência doméstica. Muitas mulheres sofrem a violência e adquirem  câncer. Temos visto muitos casos assim, de mulheres abandonadas por seus maridos durante o processo de tratamento do câncer. Tive meu marido presente em todo processo, mas não é a realidade da maioria. As mulheres vão ao nosso instituto e se espelham nas vencedoras que estão lá. Lutamos de janeiro a janeiro contra o câncer e contra a violência doméstica”, asseverou.

A Presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB-PB, Izabele Ramalho, destacou a importância da prevenção e da erradicação da violência contra a mulher. “Enquanto uma mulher sofrer violência, não erradicamos. O caminho passa sobretudo pelo ‘prevenir’, por uma educação em direitos humanos dentro das escolas. Educar as crianças e adolescentes para que busquem uma relação de igualdade e respeito”, afirmou, ressaltando a importância da lei que determina o ensino sobre a Lei Maria da Penha nas escolas.

Gerlane Belarmino, do projeto Mulheres do Amanhã, destacou a importância de reverberar a luta de combate à violência contra a mulher e em favor do empoderamento feminino. “Salientamos que a erradicação desta violência perpassa pela conscientização do homem para se construir um novo comportamento. É importante que a Casa do povo dê continuidade a esse momento em defesa das mulheres”, disse.

Representando o terceiro setor, a fundadora do Instituto IA – Incubação e Aceleração de Projetos Sociais, Priscila Dóra, destacou a importância da realização de cursos de capacitação para mulheres. “Com essa capacitação, notamos que o empoderamento dessas mulheres muda, quando tem poder econômico e decisório, o poder do não, de ter condições de sair de casa”, afirmou, explicando que muitas mulheres se mantêm em uma situação de violência doméstica por não terem condições financeiras de sair de casa.

“Podemos fazer mais do que só o debate, podemos estar na atuação, trazer o conhecimento e o direito a essas mulheres”, afirmou Priscila Dóra, convidando todos para trabalhar de forma voluntária em instituições sociais e fazer parte do fortalecimento das ações pelo fim da violência contra a mulher.

Por sua vez, a ativista Janaina Nunes enfatizou que o combate à violência contra a mulher passa pela desconstrução de certas culturas e se fortalece com as diretrizes da Organização das Nações Unidas (ONU), sempre ocupando espaços. “Essa é uma luta que demanda um movimento social complexo que deve combater todos os níveis de violência contra as mulheres. Precisa haver a educação aliada à repressão e punição por parte do Estado para garantir a proteção das mulheres vítimas da violência doméstica”, defendeu.

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